Em:
09-11-2008
Os Três Santos Juninos
Mudam os costumes, permanece a fé.
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Livro: Os três santos juninos Autora: Luzia Maria Costa Nascimento |
É no mínimo curioso que a Igreja Católica reúna na mesma festa, um doutor, um profeta e um apóstolo. O ciclo junino, que tem começo a 13 de junho e que vai a até 29 de junho, é o mais genuíno dos grupos festivos, englobando crenças antigas, tradições e costumes típicos do nordeste brasileiro, associando o culto agrário da colheita do milho ao conjunto de manifestações artísticas e culturais mais representativas do povo, destacando-se a culinária.
O ciclo junino faz a transição entre a vida rural e a vida urbana, essencialmente consumidora em um mercado de usuários conservadores de velhos hábitos, como forma de construir a identidade social. O ciclo festivo ocorre num período de plantio e colheita do milho, transforma casas e arruados em arraiais onde não faltam as tradicionais comidas feitas à base de milho e coco.
As festas começam, na verdade, no dia 1º de junho, com trezenário de Santo Antônio, correm pelos dias dedicados a São João, e terminam com a louvação a São Pedro, dando a cada um os traços característicos com os quais são reconhecidos pelo povo brasileiro.
Santo Antônio é um casamenteiro, mas também um santo de milagres, atento a atender as demandas dos seus fiéis, atribuindo-se a ele a defesa do Brasil, por exemplo, o que teria levado as autoridades portuguesas e brasileiras a considera-lo um protetor dando-lhe patentes e soldos – no Império e na República – e, como ainda hoje, em Igarassu, Pernambuco, onde Santo Antônio é vereador. São João que batizou Jesus, é um porto seguro de fé, vinculado à família do Salvador, mas também em torno do seu nome existem muitas crenças, adivinhações e sortes vinculadas ao casamento. É em torno de São João que a festa ganha seus contornos mas populares, com a capela, a fogueira, os hábitos de compadre, a mesa farta.
São Pedro, fundador da Igreja, discípulo direto e dileto de Jesus, santificado em seu martírio ampara os injustiçados, estimula os pescadores almas, complementando o ciclo de junho.
No culto junino, os santos perdem de algum modo, suas qualidades individuais em favor do coletivo, o que faz da festa um compacto de fé e devoção, aureolado de atividades que realçam a importância do ciclo para relação entre a igreja e o povo. Uma relação de intimidade, que abarca a organização familiar e comunal, dando ênfase ao uma certa unidade de pensamento e de submissão diante do mundo e da vida que fluem, tocados pelos mesmo sentimentos religiosos, de tempos antigos. As festas juninas sergipanas são amplas e diversificadas.
Cada santo independentemente do conjunto de manifestações tem seu culto e merece do povo devoção especial. Era comum, em Aracaju, as novenas nas residências, atraindo muitas pessoas a cada noite, o que significa ser da tradição guardar a imagem do santo de Lisboa ( e de Pádua ), nos oratórios domésticos. A mais velha das igrejas da capital sergipana tem como orago a Santo Antônio e nela, anualmente, a população assiste o entusiasmo dos devotos.
Há, ainda, um bairro na capital e no interior muitos municípios têm como padroeiro Santo Antônio. São João, que tem capela na avenida Carlos Bulamarqui, em Aracaju, de onde sai procissão, todos os anos, tem rua especialmente dedicada à festa, onde as quadrilhas, os bares animados por conjuntos de forró, as mesas de comidas, os vestir caipira, tudo enfim exalta o padroeiro do ciclo. São Pedro continua acompanhando o casamento da viúva, encerrando os festejos, quando a população já começa cansada da brincadeiras.
Municípios como Capela e Muribeca, contudo guardam todas energias para a celebração de São Pedro.
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- Luzia Maria da Costa Nascimento Escritora, Profissional do Direito, atuante no Movimento da Apoio Cultural Antônio Garcia Filho da Academia Sergipana de Letras. |
Ao estudar as festas juninas em Sergipe,
Luzia Maria da Costa Nascimento preenche um vazio no registro e na crítica da cultura popular, enriquecendo a bibliografia essencial, do populário sergipano. E o faz com a autoridade de quem tem a vivência das comunidades, avivadas na memória recorrente, como a do seu Arauá, de Nossa Senhora da Conceição da Parida, terra lúdica, cenário sensível de muitas recordações, onde florescem todas as lembranças, desde a infância do lados dos pais, hoje duas saudades.
Profissional do Direito com largo currículo, atuante no movimento de Apoio Cultural Antônio Garcia Filho, da Academia Sergipana de Letras, Luzia Maria da Costa Nascimento não perdeu os vínculos com as sagas ingênuas da gente sergipana, que afloram em datas festivas como as que celebram os santos no mês de junho, A autora oferece, no seu livro, uma contribuição ensaística, revisitando aspectos fixados da biografia dos três santos, incorporando um fazer local, acoplado ao devocionário popular.
O livro de Luzia Maria da Costa Nascimento, que além das pesquisas e informações que o tornam denso estudo, é complementado com Anexo dedicado ao capítulo da culinária junina, como se fosse um caderno de receitas a provocar o paladar. O livro, que também registra orações, simpatias, crenças sobreviventes em torno dos três santos, esta destinado a ser uma nova referência sobre o ciclo de festas juninas, ampliando a massa crítica das jornadas do Centro de Criatividade, que por anos seguidos foram da iniciativa e coordenação da professora Aglaé d´Ávila Fontes, e que são repositório de preciosas informações e análises.
O livro de Luzia Maria da Costa Nascimento ocupa, agora, um espaço importante da interpretação dos fatos culturais, com os quais as comunidades convive no cotidiano de suas crenças, fazeres e lazeres.
Luiz Antônio Barreto
Jornalista e Escritor